A HISTÓRIA DE UMA CRISE IMPORTADA
TEIMOSIA OU CEGUEIRA?
Humberto Ferreira
Na actual conjuntura há questões que, até agora, não foram colocadas a quem de direito nem tratadas pelos azes da comunicação social.
1ª – Quanto teria o Ministério das Finanças poupado, se o chefe dos ministros em gestão tivesse feito o que foi dito no Outono passado, ou seja, pedir ajuda externa caso os juros subissem acima de 7%?
2ª – Quanto vale o corte médio nas pensões acima de 1500 euros mensais em comparação com a subida do IVA de 23% para 24% e 25%?
3ª – E quanto já custou aos portugueses a reprovação parlamentar do PEC IV?
Sem números não sou capaz de trabalhar. Pode ser um defeito pessoal, mas tomara que todos os ministros e próximos candidatos seguissem este meu método!
Os graves problemas sobre o presente e o futuro de Portugal não devem continuar a ser tratados nem pela agenda jornalística nem com palpites e ataques pessoas em intervenções televisivas, na rua ou à entrada ou saída de eventos, ou de acusações do animal feroz contra o coelho doméstico e vice-versa! Mas, também, só vai na conversa deles quem corre por gosto!
NO CENÁRIO DE SÃO BENTO
Para que fique claro: primeiro, a residência oficial do Primeiro-Ministro não é o Palácio de São Bento, mas sim um palacete de um antigo industrial adquirido por Salazar pela sua proximidade da Assembleia Nacional da época. Segundo, a sua origem não é palaciana mas sim o mosteiro Beneditino de São Bento da Saúde, transformado em 1834 em sede das Cortes.
Ontem, segunda-feira, 4 de Abril a RTP1 abriu as hostilidades eleitorais de 5 de Junho, com uma entrevista ao Primeiro-Ministro neste cenário burguês. Foi um serão de crispação. Nunca ouvi tanta mentira e tanta propaganda pessoal em tão pouco tempo.
Os nossos políticos pensam que o tempo de antena destas entrevistas lhes dão direito a debitar as respectivas cassetes com a gravação das mensagens partidárias, ou pessoais, que lhes interessa transmitir, especialmente em períodos pré-eleitorais. Confundindo uma entrevista com um comício transmitido pela TV.
Os jornalistas da RTP bem tentaram abreviar as respostas ao PM, mas este repetiu até à exaustão os seus recados ao eleitorado e aos adversários. Ouvi falar mais dos “feitos” do seu primeiro governo e do seu passado do que das futuras propostas do PS para evitar o colapso financeiro eminente! Ouvi atacar mais o PSD e o seu líder, inclusivamente classificando-o repetidas vezes que é “mesquinho, leviano, irresponsável., inexperiente, sôfrego pelo poder, e calculista com uma actuação dupla (lá fora diz uma coisa, em Portugal diz outra) e que o chumbo deste PEC foi uma “golpada eleitoral”. Mas ouvi, do princípio ao fim, auto-elogios. Ora quem se sente, assim, tão acima dos seus pares não pode ser bom governante. Para isso é preciso ser determinando mas tolerante, respeitador da opinião dos outros, menos irritadiço e agressivo, e suficientemente modesto para não cair, por exemplo, na situação de vir pedir já nos próximos dias ajuda externa, como os seus homólogos da Grécia, da Irlanda fizeram, e até o seu antigo secretário-geral Mário Soares seguiu essa via sem preconceitos!
Ele bem tentou confundir os entrevistadores, respondendo enviesado às perguntas.
Não confundiu os jornalistas, mas conseguiu confundir a audiência ao desviar as respostas.
Para ele chega perfeitamente o que diz aos portugueses. De resto são tentativas da reacção para deformar a situação. Disse a um jornalista que via bem que a ele só interessava esclarecer as teses da oposição!
Chamará ele a esta posição a alegada abertura ao diálogo, à negociação e ao acordo para um governo alargado com dois ou mais partidos? Estão a ver alguém dialogar, negociar ou assinar um acordo com ele? Para que serve? Ele não muda!
SALÁRIO MÍNIMO – Por exemplo, fez questão em enumerar as desvantagens já sofridas pela Grécia (há um ano) e pela Irlanda (há seis meses) com a ajuda do FMI (o Fundo Europeu de Estabilização Financeira só foi criado em Fevereiro e só deve estar operacional em Junho de 2011), mas limitou-se a repetir, vezes sem conta, a descida do salário mínimo.
Ora o salário mínimo aplica-se no sector privado e não no público. A Irlanda, especialmente, tem um salário mínimo ainda bastante elevado em relação ao nosso, quando, por sinal, este PM não conseguiu fazer aplicar em 2011 a subida para 550 euros/mês, conforme acordo assinado em 2008.
As confederações empresariais ficaram também muito mal nesta “fotografia de grupo”, pois qualquer empresário, a funcionar normalmente, no espaço europeu, que não possa pagar 500 euros por mês a um empregado … mas que pode pagar as recentes subidas de impostos e outras alcavalas, exigidas pelos PEC 1 e 2 e OE2011, o melhor que tem a fazer é mudar de vida ou de país. A exploração da mão-de-obra deve ser crime de lesa-Europa! E o que interessa ao fisco a manutenção de “empresas” sem lucros durante anos, décadas seguidas? Na Irlanda, pelo menos, isentava-se praticamente as empresas de IRS, para atrair investimento estrangeiro. E conseguiram bater o pé ao FMI nesta batalha! Mas o PM ignorou esta parte!
ENCERRAR ORGANISMOS PÚBLICOS – O PM não quer despedir funcionários públicos com vínculo. Está certo. Mas a Nova Europa não pode continuar a ser o abrigo dos “boys & girls” apadrinhados pelos partidos políticos, da esquerda à direita, para dali recrutar os seus mais fiéis militantes e futuros quadros. O tempo dos Estados gordos acabou. A moda agora é incentivar e promover gente elegante. Adeus aos obesos e adeus aos organismos e gabinetes públicos criados para empregar afilhados políticos.
O Tratado de Roma de 1957, que criou a Comunidade Económica Europeia em 1958, trabalhou muito bem nos primeiros 40 anos, transformando, para o desespero da “ esquerda desunida”, a “Europa dos serviços públicos de rotina” na nova “Europa da competitividade e produtividade”. Acabando com a maior parte das empresas públicas bancárias, seguradoras, transportadoras, marítimas e agrícolas. Mas sempre que os socialistas governam, cresce o número de organismos, empresas e parcerias públicas, pagando o justo pelo pecador!
Ora as ajudas do FMI à Grécia e Irlanda também abrangeram, assim, o encerramento de organismos desnecessários e até a dispensa dos respectivos funcionários, além do corte de salários aos que permaneceram ao serviço. . Mas os portugueses são diferentes e, como tal, merecem ser mais protegidos pelo directório europeu.
PESADA HERANÇA – A Comissão Europeia bem tem avisado Lisboa para privatizar a TAP, Sata, ANA, portos, correios, rodoviárias, RTP, RDP, Lusa, imobiliárias do Estado, e “golden-shares” na TP, Galp, etc., mas a esquerda faz ouvidos moucos e organiza logo marchas de protesto.
Se queremos uma Europa competitiva e produtiva, temos que proporcionar a todos os membros uma fiscalidade unificada, e um empresariado dinâmico. Até lá, a América conta com um avanço parecido com o do Porto na Liga 2010-2011.
Ao governo de Lisboa deu jeito empresas públicas altamente deficitárias (como a CP, Carris, Metros de Lisboa, Porto, Almada, etc.) cujos défices não foram contabilizados no OE, até que Bruxelas descobriu este desvio e a partir de agora, ponto final.
O pior é que na relação dos “bens”, a herdar pelo próximo governo, vem à cabeça o défice acumulado de milhares de milhões de euros dessas empresas mais as dívidas deste governo dos subsídios de compensação pela operação de serviços e rotas de interesse público.
Genial, a desculpa do PM, dada ontem aos jornalistas da RTP: a Comissão Europeia decidiu mudar as regras já depois das nossas contas encerradas, mas o défice do OE2010, para todos os efeitos, foi de 6,8% e não de 8,6% como se diz, depois desta rectificação. Define bem o europeu solidário.
Talvez, também, seja capaz de apagar a luz e regar o relvado, enquanto os adversários ainda estavam no recinto, a festejar a vitória!Fairplay, não lhe falta!
ENCERRAMENTO ZERO – Entretanto, nem disse uma palavra sobre o número dos organismos públicos já encerrados (por estarem a duplicar os encargos do Estado)? Diga-se que estes organismos, fundações, parcerias e similares foram contemplados na célebre e ignorada lista das contrapartidas acordadas com o PSD, desde Maio de 2010, para apoiar o PEC II, em que o Governo subiu o IVA e introduziu novas tabelas de IRS a meio do ano fiscal 2010, portanto, em retroactividade! Ao governo de Lisboa
tudo é permitido, pela Constituição, pela Assmbleia, e pela Comissão Europeia!
Mas diga-se que Lisboa teve mais criatividade na solução adoptada: os funcionários com vínculo ao Estado não seriam dispensados mas colocados na bolsa de mobilidade, para serem chamados para vagas, entretanto, abertas em outros serviços oficiais. Mas nem assim resultou!
REACÇÃO TARDIA DE LISBOA – Os jornalistas apresentaram a tese corrente de que o governo reagiu tarde e com frequentes medidas avulsas para atacar a crise da dívida externa e do excessivo financiamento do Estado, a níveis bem acima dos recursos produzidos (PIB).
Mas o entrevistado desviou a “bola”. Disse que todos os países têm apresentado vários PEC em Bruxelas, enquanto ele só apresentou três, o de 2010 em Março, o segundo em Junho (depois do 1º acordo com o PSD) e agora o 3º, precipitadamente, chumbado pela oposição …mesquinha, leviana, irresponsável e sedenta de mais poder.
E que ele foi o único dirigente que tem avisado os portugueses da gravidade da situação do país. Sem ele, entramos no caos. A opção que nos resta, pobres cidadãos, é: com ele, saímos do caos … mas talvez caiamos no abismo da bancarrota. Isso, ele não disse! Mas nós sabemos.
Curiosamente, quem primeiro advertiu os portugueses da ameaça que o grave endividamento externo teria na vida das gerações seguintes foi Manuel Ferreira Leite, antes e durante a campanha eleitoral (que perdeu) de Setembro de 2009. O que ele sempre negou!
Ainda ontem, ele disse que a Bélgica, Itália, Espanha, França e Reino Unido têm dívidas maiores que a portuguesa. Afinal, nem sabe que uma coisa é a dívida destas potências europeias (com excepção da Bélgica) e o respectivo potencial para pagar os seus compromissos (países altamente industrializados, avançados e organizados… até a Itália tem uma alta taxa de poupança interna e exporta tudo para todo o mundo, onde as marcas italianas são apreciadas) e outra é a dívida pública portuguesa que já cobre 94% do PIB anual.
A Bélgica está há cerca de seis meses sob um governo de gestão e não tem sido tão causticada pelos mercados como Portugal. Porque será? Ninguém acredita no nosso governo? E quando os jornalistas lhe lembraram que a Espanha apresentou um PEC duro em Abril de 2010, ele retorquiu NÃO. Isso não é assim. Adiantando que eles deviam ter estudado melhor o caso.
BANCA E ECONOMIA ASFIXIADA COM PEC – A melhor tirada da noite pelo PM foi: O chumbo do PEC foi mau para Portugal e para o Euro. Nós no conselho do EuroGrupo combinamos uma estratégia para defender o Euro.
Agora, sem a ponta que Portugal constituía neste plano, esse trabalho terá que seguir outra via. Mas não falou num plano B.
MERCADOS NÃO OUVEM O QUE ELE DIZ - Entretanto, o rating de seis bancos portugueses baixou hoje (terça-feira, 5 de Abril) em três níveis, ficando mais próximo do nível do “lixo”.
Também consta que os banqueiros portugueses se reuniram para analisar a situação, tendo o BPI e o BCP recomendado já que o governo deve pedir ajuda externa ao FEEF, para não penalizar mais o crédito à economia.
Aos investidores internacionais deixou de interessar adquirir mais títulos da nossa dívida com ratings tão baixos das agências de rating, castigando os bancos que precisam de se financiar para alimentar a economia.
O PM sujeita-se, assim, a ser lembrado como responsável pela asfixia mais prolongada da economia e da banca.
terça-feira, 5 de abril de 2011
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