sábado, 11 de junho de 2011

Veneza cria taxa sobre alojamentos: um euro por dormida e por estrela

Humberto Ferreira

Uma notícia da Etoa (Associação Europeia dos Operadores Turísticos) de 10 de Junho, anuncia que a Comuna de Veneza decidiu aplicar, a partir de 1 de Julho de 2011, uma taxa de um euro por dormida, por estrela da classificação da unidade, até ao máximo de cinco noites por pessoa, nos estabelecimentos do Veneto. A medida foi tomada numa reunião entre os autarcas da região e da comuna de Veneza, na quarta-feira 8 de Junho, para ter efeito já a partir de 1 de Julho, aproveitando assim as receitas da época alta.
Apesar do regulamento não estar ainda disponível, espera-se que seja seguido o exemplo de Florença, com uma redução na época mais baixa do ano (de Novembro a Fevereiro). Pelos vistos, quem passa mais que cinco noites de estada fica isento após a quinta noite, para assim favorecer os que passam férias prolongadas. Haverá também isenção para os residentes no Veneto menores de 10 anos, aos motoristas e guias de grupos que acompanhem turistas, e a quem use “hostels” e alojamentos da comuna (sociais?). Além disso, espera-se uma tabela mais baixa para os hotéis de uma, duas ou três estrelas na zona continental e nas ilhas do Delta do Pó.
O objectivo do autarca de Veneza, Giorgio Orsoni, visa, aparentemente, que sejam os turistas a pagar a falta dos encargos comprometidos. Autarquias e governos europeus andam há décadas a gastar mais do que as receitas que arrecadam, cientes de que os contribuintes continuem a pagar as suas megalomanias.
Com tão reduzida antecedência (escassos 20 dias), será que a Comissão Europeia não pode intervir, pelo menos, a favor dos turistas e dos operadores e agências a quem os turistas compraram as dormidas, alguns há meses?
O autarca Orsoni já respondeu à ministra do Turismo, Vittoria Brambilla, que nem sequer tem que pedir ou esperar pela aprovação do governo de Roma, para implementar a medida.
Os autarcas italianos do Veneto e da Toscania “desconhecem” ou ignoram os contratos para vendas globais antecipadas ou para vendas pela internet a descontar o depósito pago. Ou acreditam mesmo que basta avisar apenas com 20 dias de antecedência, à escala global, a entrada em vigor deste custo adicional?
Estas receitas autárquicas (alegadamente livres de impostos centrais), por muito que sejam indispensáveis ao saneamento da gestão municipal, não estavam previstas pelas famílias e casais que têm reservas para visitar Veneza a partir de Julho. Cada hóspede na cidade dos Doges, vai ter que despender, na altura, cerca de mais 20/25 euros/cabeça (por 5 noites, por 5 estrelas, vezes um euro).
Multiplicados por dezenas de milhares de quartos de cinco em cinco noites, pois em Julho e Agosto costuma ser difícil encontrar quartos vagos em Veneza e Mestre (cidades contíguas), os autarcas do Veneto calculam receber cerca de 20 milhões de euros no primeiro ano, com a desculpa dos 20 milhões serem destinados a melhorar as infraestruturas da cidades (canais?) e os monumentos visitados pelos turistas. Ora as infraestruturas de uma área tão sensível como Veneza, devem se mantidas, melhoradas e renovadas através dos impostos centrais, regionais e locais, cobrados a todas as actividades económicas e laborais que delas usufruem. Não são encargos exclusivos dos turistas, que já pagam impostos aos transportadores, hoteleiros e restaurantes, operadores, e nas entradas para visitar monumentos, exposições e espectáculos, assim como para comprar lembranças do Veneto. .

Em Portugal, curiosamente, os operadores turísticos passaram, oficialmente, por decreto, a ser “agências organizadoras”. Como deve haver bastantes portugueses com reservas para Veneza a partir de 1 de Julho, pelo que a medida afectará também empresas e clientes portugueses.
Portugal é diferente! Embora, nem sempre por motivos recomendáveis. De facto, a autarquia de Lisboa, no final de 2010, já foi tentada a implementar taxa semelhante à de Florença, Roma e Veneza! Tentativa bem travada face aos protestos dos hoteleiros e outros parceiros!
Como o nosso novo governo nem terá direito ao habitual “estado de graça”, devido à situação crítica em que o País e Turismo se encontram, aqui fica o aviso para não quererem, os seus responsáveis, matar a galinha dos ovos de ouro – o turismo. Nem com esta taxa sobre dormidas, que, afinal, favorece os excursionistas (quem não dorme em território nacional) aos turistas (que exactamente usufruem de alojamento), nem com a ameaça do aumento do IVA na restauração de 13 para 23 por cento.
Mas que mal deu aos políticos europeus?

terça-feira, 3 de maio de 2011

100 ANOS DE IMPRENSA TURÍSTICA EM PORTUGAL
(A INFORMAR E ACOMPANHAR O TURISMO EM PORTUGAL E NO MUNDO)

Humberto Ferreira

A minha introdução aos livros sobre viagens teve lugar nos anos 40, na prova de admissão à Universidade de Glasgow, lendo e interpretando extractos de livros de Joseph Conrad sobre viagens marítimas.
Designadamente “Lord Jim” de 1900 - passado em 1880 a abordo do “Jeddah”; e “Youth e outros contos” de 1902 - a bordo do “Palestine”
É um autor que ainda hoje me delicia com as suas experiências como tripulante durante 16 anos, em longas viagens a bordo de veleiros, no Atlântico, Caraíbas, Índico e Pacífico, além de um longo período embarcado num vapor de carreira, no rio Zaire.
Na época, como as viagens eram muito longas, e feitas sob condições quase sub-humanas, sujeitas a frequentes naufrágios, os marinheiros eram contratados por viagem, mas já havia a figura dos armadores de navegação e da aprendizagem prática para as carreiras de marinhagem, mestrança e comando.
INTRODUÇÃO HISTÓRICA
As primeiras viagens relatadas para a História também foram sobre epopeias marítimas, realizadas ao longo de várias civilizações, cujos líderes sentiram a necessidade de se expandir e descobrir o que se encontrava para além do horizonte, que se perde no mar.
Expedições e conquistas terrestres pelo Oriente deram também mote a muitas lendas e crónicas históricas. Entre as mais conhecidas destaco:
Preste João das Índias, figura fictícia ou real que terá sido imperador da Etiópia ou rei de um estado Indiano, e que data do século XII, pois as primeiras crónicas chegaram a Roma pelo bispo Hugo de Gabel em 1145.
Marco Polo (1254-1324) conta as suas expedições através do Livro das Maravilhas.
Os portugueses Pero da Covilhã (c. 1450-1530) e Afonso de Paiva (c.1443-1490), diplomatas ou espiões do Reino, também foram notáveis exploradores e cronistas das rotas intercontinentais que percorreram.
Mas foram as expedições marítimas que deram lugar às descobertas portuguesas que mais contribuíram para este legado patrimonial à Humanidade.
Entre os nossos maiores cronistas relembro:
Gomes Eanes de Zurara (c. 1410-1474), que escreveu sobre as tomadas de Ceuta em 1415 e da Guiné em 1453; e ...
Fernão Mendes Pinto (c. 1510-1583), que escreveu a “Peregrinação”, depois de 21 acidentados anos entre Ormuz, Malaca, Birmânia, China e Japão.
Isto sem esquecer o anterior contributo histórico do Infante D. Henrique (1394-1460), que deu continuidade às primeiras expedições de D. Dinis ao Norte de África e à criação do Almirantado em 1317, sob o comando do genovês Emanuel Pessanha, cujos descendentes detiveram essa honra vitalícia até 1385.
Lembro ainda que o período áureo da expansão lusíada durou até à chegada dos portugueses à China em 1513 e ao Japão em 1543, com extraordinários testemunhos sobre culturas e hábitos de povos diferentes.
Pela minha própria experiência de reportagens nos cinco continentes, para se escrever sobre viagens é preciso, primeiro de tudo, viajar e saber observar a paisagem e os costumes de outros povos, outras culturas, outra gastronomia, outras vidas. Depois, ter gosto em transmitir por escrito as experiências vividas.
Poderá, à primeira vista, parecer insólita esta comparação da imprensa turística contemporânea com as crónicas históricas. Mas creio, sinceramente, que no fundo se assemelham, até quando leio agora os excelentes livros de crónicas de viagem contemporâneas do Gonçalo Cadilhe, ou os textos de Urbano Tavares Rodrigues sobre o Alentejo, entre outros.
E ainda no que respeita a crónicas de viagens marítimas portuguesas, destaco os livros de Maurício de Oliveira (1909-1972, jornalista especializado em temas navais e marítimos, que trabalhou no “Diário de Lisboa” e dirigiu “A Capital” e o “Jornal de Comércio”. Foi ele que cobriu o 1º voo do Atlântico Sul por Gago Coutinho e Sacadura Cabral em 1922.
Mas não foram apenas os portugueses a apostar no mar para se inspirarem na escrita sobre viagens inesquecíveis. Destaco três exemplos: Sir John Barrow, autor da “Revolta na Bounty” (1831 – Mutinity on the Bounty); Thor Heyerdahl, autor de “A Expedição do Tigris” (1977); e Allan Villiers autor de “The Quest of the Schooner Argus” (1951) e “By the Way of Cape Horn” (1952).
Hoje, se disser ao meu neto para ler estes livros, ele responde-me: “isso” está na net! Que pena as gerações mais jovens não apreciarem o cheiro e o toque do papel e d tinta, tal como nos jornais e revistas!
O SUCESSO DA “GAZETA DOS CAMINHOS DE FERRO”
Talvez o primeiro êxito editorial de uma publicação dedicada às viagens e turismo, em Portugal, tenha sido, o da “Gazeta dos Caminhos de Ferro”, de Leonildo Mendonça e Costa. Numa primeira fase entre 15 de Março de 1888 e 1898 como “Gazeta dos Caminhos de Ferro de Portugal e Hespanha”, e a partir daí até 1940 como “Gazeta dos Caminhos de Ferro”. O projecto original foi de inspiração espanhola, mas durante 42 anos sobreviveu independente - à Monarquia e às 1ª e 2ª Repúblicas - até que o Secretariado de Propaganda Nacional decidiu tutelar o Turismo, como instrumento de propaganda, entre 1941 e 1974.
A secção “Viagens e Transportes” da “Gazeta” deliciou os leitores entre 1910 e 1940; e a secção “Termas, Campos e Praias” começou mais cedo em 1894. Além dos horários e promoções dos comboios, a Gazeta tinha crónicas e sugestões de viagens.
A 28 de Fevereiro de 1906 foi fundada, em Lisboa, a Sociedade de Propaganda de Portugal (acrescida do subtítulo mais usado na Europa: Touring Club de Portugal – o antecessor do ACP), graças ao entusiasmo de Leonildo Mendonça e Costa, e dos contactos que ele estabeleceu durante as suas viagens de comboio pela Europa. Ele já era colaborador regular do “Diário de Notícias” e depois foi director e proprietário da “Gazeta dos Caminhos de Ferro”, um amigo dos comboios e o pioneiro do jornalismo turístico.
Em Dezembro de 1906, a Sociedade de Propaganda de Portugal tinha 2175 sócios, de todos os quadrantes políticos e segmentos da sociedade. E publicava todos os meses um boletim para informar os associados das suas iniciativas e excursões.
Em 1907, Leonildo Mendonça e Costa publicou a 1ª edição do “Manual do Viajante em Portugal”, cujas edições seguintes se prolongaram até 1955, as últimas da autoria de Carlos D’Ornelas, que substituiu o primeiro director da “Gazeta” em 1924.
Não se estranha, assim, que graças à influência de Leonildo Mendonça e Costa, da “Gazeta dos Caminhos de Ferro” e da Sociedade de Propaganda de Portugal, o governo da época, representado por Bernardino Machado, ministro dos Estrangeiros e mais tarde Presidente da República, tenha anunciado a 16 de Maio de 1911, a criação da 1ª Repartição de Turismo, integrada no Ministério do Fomento, durante o IV Congresso Internacional de Turismo, realizado na Sociedade de Geografia de Lisboa, iniciativa lançada e dinamizada pelos Touring Clubs da Europa.
Note-se que o I Congresso Nacional de Turismo viria a realizar-se de 12 a16 de Janeiro de 1936, em Lisboa, 25 anos depois.
ALÉM DA IMPRENSA ESCRITA
A fotografia, o cinema e a tecnologia audiovisual e electrónica vieram também contribuir fortemente para a evolução da escrita sobre viagens, pois se as fotografias precisam de legendas, os filmes e os vídeos de um guião.
Hoje, a escrita, a fotografia, o cinema, o vídeo e a internet completam-se.
No que toca à fotografia, quero relembrar o inestimável contributo do professor e geógrafo Orlando Ribeiro (1911-1997) para o melhor conhecimento de Portugal através da imagem, com o seu valioso espólio fotográfico, disponível aos investigadores no Centro de Estudos Geográficos, do agora Instituto de Geografia e Ordenamento do Território, da Universidade de Lisboa. Comemora-se este ano o aniversário do nascimento de Orlando Ribeiro, tendo a RTP estreado recentemente o excelente documentário “Itinerâncias de um Geógrafo”, por António João Saraiva. Estando igualmente prevista a realização de exposições da obra de Orlando Ribeiro nos principais centros de estudos geográficos.
Quanto a fotógrafos especializados em turismo (livros, álbuns, cartazes, exposições, etc.) quero destacar, além do pioneiro Orlando Ribeiro, os nomes de Maurício de Abreu, Carlos Barros, Armando Seródio, Horácio Novais, José Meco, Jorge Alves, Clara Azevedo, Paulo Vaz Henriques, Santos de Almeida Júnior, Nuno Calvet e José Manuel Simões.
Aproveito para lançar um apelo, dirigido aos editores da imprensa contemporânea, para dedicarem mais espaço a iniciativas culturais deste tipo, para que as gerações modernas tomem o devido conhecimento dos estudos, pesquisas e divulgação que os portugueses têm feito, ao longo do séculos, na área do Planeamento do Território e do seu enquadramento turístico, competindo aos futuros cientistas aprofundar e completar as obras anteriores, em defesa do nosso valioso património cultural. Caso contrário tudo ficará esquecido na voragem das tecnologias passageiras.
De facto, a Geografia e a Sociologia são as ciências mais próximas do Turismo. Felizmente, a Academia conhece bem esta ligação e tem dado boas provas de aproximação ao Turismo, com a valorização de cursos e iniciativas de intercâmbio na área do Planeamento e Ordenamento do Território e da Sustentabilidade Ambiental. Oxalá as empresas do sector sigam um caminho semelhante de valorização e divulgação dos seus projectos e das vantagens de cooperação mútua.
PRIMEIROS CONTACTOS PESSOAIS COM A IMPRENSA TURÍSTICA
Os meus datam de 1955, enquanto trabalhei em construção naval e no agenciamento de navios, entrei em contacto directo com o Turismo e com a imprensa especializada da época.
A minha primeira memória é da “Revista do Turismo”, então dirigida pelo Henrique Aragão Pinto, que mais tarde foi meu colega e amigo; e o “Jornal de Turismo” dos também meus amigos Gentil Marques e sua mulher Mariália, ambos também conhecidos pela divulgação das lendas de Portugal.
Admito que a criatividade dos editores da época, com a repetição dos títulos não era diversificada, mas também estavam muito na moda os Hotéis de Turismo.
Aliás, nesta mostra da Hemeroteca Municipal de Lisboa, a mais antiga publicação deste ramo é a “Revista de Turismo” de 1916. Não sei se era da mesma “cepa” da que vim encontrar em 1955. O que importa saber é que, em 1916, já havia em Portugal outras publicações dedicadas ao Turismo, além da referida “Gazeta dos Caminhos de Ferro”.
Não sendo bibliógrafo estudioso, ainda li alguns números da revista “A Ilustração Portuguesa” desde 1917 – o suplemento do diário “O Século”, com diversos temas curiosos, como aeronáutica, caminhos de ferro, turismo, etc.
Lembro-me também da revista “Panorama”, editada pelo SPN – Secretariado de Propaganda Nacional, e dirigida por António Ferro entre 1942 e 1949. Foi a primeira publicação de turismo do antigo regime, com a colaboração dos melhores escritores, jornalistas e fotógrafos da época. Teve uma interrupção em 1950 mas publicou-se até 1974.
Outra publicação que deixou marcas foi a “Bússola”, também editada pelo SNI (evolução do SPN para o Secretariado Nacional de Informação), com informação mensal detalhada e bastante útil sobre a agenda para turistas em visita a Lisboa e a Portugal, publicada nos principais idiomas até 1974.
“NOVA” GERAÇÃO
A 1 Março 1968, Nuno Rocha e Mário Ventura Henriques (jornalistas do Diário Popular) lançaram, em Lisboa, o quinzenário “Publituris”, para cobrir a dispersa informação especializada em promoção do turismo, aviação, cruzeiros, hotelaria, excursões e eventos. Foi um projecto profissional que perdura no 44º ano de publicação.
O “Publituris” é a única publicação que resiste desde a época inicial do crescimento do Turismo, associada aos Planos de Fomento de 1965-67 e 1968-73, e onde continuo a colaborar, depois de ter sido chefe de redacção, redactor principal, e editor do “Publituris Internacional” destinado ao mercado externo.
Nuno Rocha “descobriu” a minha vocação para escrever (relatórios de viagens e algumas notícias breves sobre os paquetes da Italian Line que visitavam o porto de Lisboa) convidou-me, então, para colaborador do Publituris. Em 1973 lançamos a edição em inglês e em 1975 fundamos a Associação dos Jornalistas e Escritores Portugueses de Turismo (Ajept – hoje Ajopt, depois de “retirarem” os escritores). De colaborador externo. entrei em 1986 para a redacção do “Publituris” (hoje integrada no grupo Workmedia), já sob a direcção de Belmiro Santos, um dos melhores jornalistas portugueses de turismo, com quem tive o privilégio de trabalhar até 1999.
Entretanto, em 1975 tornei-me jornalista profissional, tendo chefiado as redacções no “Tempo”, “A Tarde”, “Publituris” e colaborado em diversos títulos nacionais e estrangeiros, destacando o “Correio da Manhã”, as revistas “Vela” (portuguesa e brasileira), “Jornal da Marinha Mercante”, “Bordo Livre”, “Vela Brasileira”, “OAG Magazine”, “Travel Trade Gazette” e “Travel Agent Magazine”.
Curiosamente, o primeiro dinheiro que ganhei tinha sido como correspondente do “Glasgow Herald”, na qualidade de “especialista da renovação da frota mercante portuguesa”, tendo por base o consagrado “Despacho 100”, de 10 de Agosto de 1945, assinado pelo então ministro da Marinha, cmg Américo Tomás. Entre 1947 e 1961 foram construídos 56 navios portugueses, 26 dos quais paquetes, de um total de 70 navios previstos, entre unidades de carga, passageiros, cabotagem e petroleiros. O primeiro foi o “Pátria” da Companhia Colonial de Navegação, à entrega do qual assisti, no estaleiro John Brown, como estudante do Royal Tehnical Colege, em Dezembro de 1947, e o último foi o “Funchal” em Setembro de 1961. Cerca de 37 navios foram construídos em estaleiros britânicos, daí o interesse do “Glasgow Herald” na minha colaboração.
BREVE PANORÂMICA DA IMPRENSA TURÍSTICA
A partir dos anos 70 tem havido, felizmente, múltiplas iniciativas para dinamizar a imprensa turística, prova de que o sector continua activo e com boas perspectivas. Prefiro não falar dos projectos falhados ou suspensos, por isso lembro, na impossibilidade de cobrir todos, os seguintes: “Publituris” (1968) (que deu lugar às revistas “Publituris International” (hoje “Portugal Travel News”), “Equipotel” (hoje “Hotelaria”) e “What’s On in Lisbon”); “Guia Terra, Mar e Ar” (1972); “Turisver”; “Viajar”; “Ambitur”; “Volta ao Mundo”; “Rotas e Destinos”; “Tempo Livre” (antiga revista do Inatel); “Evasões”; “Time Out in Lisbon”; “Algarve Essential”, “Guia Michelin”, “Revista do Automóvel Clube de Portugal”, “Revista de Cruzeiros”(editada na Madeira, Janeiro 2011), etc.
Omiti boletins e revistas associativas impressas e portais na internet, assim como revistas de cadeias de hotéis e transportadoras aéreas.
Entre os “sites” electrónicos de turismo, destaco os do Publituris, Turisver, Ambitur, e dos organismos centrais, regionais e locais de Turismo, mas ao lado dos que não têm edição impressa, como o “Presstur”, “Opção Turismo”, “Info-Cruzeiros”, etc.
DESTINATÁRIOS
Quando se trata de publicações especializadas em Turismo, há que definir os destinatários, nomeadamente entre profissionais e turistas (ou consumidores de produtos turísticos).
A gama dos destinatários profissionais é bastante alargada, pois há gestores, técnicos, consultores e docentes, com requisitos diversos nos sectores da Hotelaria, Aviação, Distribuição (operadores, grossistas e retalhistas), Cruzeiros, Autocarros, Automóveis de Aluguer, Caminhos de Ferro; Animação e Eventos Turísticos, Desportivos e Culturais (incluindo congressos e incentivos); Restauração; Organização Turística e Órgãos de Turismo; Promoção Turística; Legislação e Análise; Produtos Turísticos; e Turismo Sustentável.
Enquanto os turistas contemporâneos (tal como os do século XX) recorrem cada vez mais a informação conceituada dos grandes editores mundiais, como os guias da American Express, Michelin, Lonely Planet, Casterman, etc., ou aos portais electrónicos especializados.
E há ainda uma terceira via que se alarga também aos portais cibernéticos, dispersa em quatro vertentes:
1 - GUIAS, ROTEIROS, ATLAS, MAPAS DE TURISMO e GUIAS DE GASTRONOMIA, RESTAURANTES E HOTELARIA – destinados a viajantes e excursionistas, assim como a profissionais do sector, incluindo as publicações monográficas locais e as edições dos órgãos de promoção turística.
NOTA - Na área da restauração e gastronomia, falta-nos, por exemplo, um projecto semelhante ao do ENIT (Entidade Nacional Italiana para o Turismo), intitulado “A Tavola in Italia”, com a cobertura nacional das especialidades italianas desde a década de 70.
2 - ORGÃOS DE EMPRESAS, CADEIAS, GRUPOS (House Magazines) – para divulgação dos seus projectos, novos serviços e programas (especialmente na Hotelaria, Aviação, Cruzeiros e Serviços de Promoção dos Destinos Turísticos).
3 - ORGÃOS GENERALISTAS com secções de Turismo – Também todos os jornais e revistas, de uma maneira geral, dedicam hoje crescente espaço ao noticiário e opinião sobre a problemática do Turismo. Alguns têm mesmo suplementos semanais de Turismo, dos quais destaco o semanário “Fugas” do diário “Público”. Até consultando as colecções dos semanários “Expresso” e “Sol” vemos muitas páginas dedicadas a este sector. Tem também havido vários projectos de Turismo dos canais televisivos, o mais recente dos quais é o programa de cruzeiros da SIC Notícias, coordenado por José Figueira e Fernando Santos.
4 – CRÓNICAS DE VIAGENS – com uma oferta bastante diversificada e actualizada de destinos e costumes, escritos por autores de mérito consagrado e por jornalistas de prestígio.
NOTA - Quero ainda lembrar que talvez a maior carência da bibliografia portuguesa de Turismo, seja na área dos manuais sobre estudos, teorias, práticas e teses associadas ao desenvolvimento do sector e dos múltiplos ramos que o integram. Estive associado a vários projectos que não vingaram e está por editar a “História do Turismo em Portugal” e “Quem foi quem no Turismo em Portugal”. Temas que têm sido cobertos, de forma exemplar, pelos oficiais e estudiosos das marinhas de guerra, mercante, pesca e recreio.
CONCLUSÃO
Uma palavra final de agradecimento à organização deste evento, os responsáveis da Hemeroteca Municipal de Lisboa, e da Comissão organizadora do Centenário da 1ª repartição de Turismo em Portugal.
Esta experiência comprova, afinal, como de um tema alegadamente árido, sobre uma mostra de publicações de turismo, se consegue contar uma série de pequenas histórias curiosas, ligadas aos 100 anos de Turismo, que Portugal comemora em 2011. Ficaria muito satisfeito se, de alguma forma, consegui entusiasmar mais alguém para a causa da Turismo, através de ter tentado valorizar a utilidade das publicações especializadas em Turismo.
Humberto Ferreira
RECOMENDAÇÕES DE LEITURA
Para dar uma ideia da variedade de opções de informação sobre os vários aspectos do Turismo e Viagens, considerando que se deve continuar a consultar as obras de referência que cobrem o período em que, um homem como eu, viajou nos comboios a vapor e nos de alta velocidade, nos navios a carvão e em dois de energia nuclear assim como em vários paquetes de grande potência e dimensão, ou em carros a gasogénio, a gasolina com chumbo e a álcool, assim como em aviões biplanos e em jactos gigantes, em 2011 é a altura certa para se avaliar da herança legada ao Turismo por vultos de elevada visão.
Para este agradável trabalho consultei a seguinte bibliografia:
*“Guia de Portugal” (1927 – reeditado 1960-70), coordenado por Raul Brandão, autor de “Os Pescadores”, “As Ilhas Desconhecidas”, etc. *“Manual do Viajante em Portugal” por Carlos d’Ornelas – edição da Gazeta dos Caminhos de Ferro (1924-1945).*“Triângulo Arrábida Palmela Cezimbra! – edição do SNI – Secretariado Nacional de Informação. *“Sintra” – edição do Guia de Portugal Artístico, por Robélia de Sousa Lôbo Ramalho (1945). *“Algarve” – edição da Comissão Regional de Turismo do Algarve, por Frank Cook (1944-1971-1973). *“Portugal” – Collins Holiday Guides, por Peter Whelpton (1966). *“The Shell Guide to Europe”, por Diana Petry, Londres (1968). *“Roteiro da Arte Portuguesa” – Ministério da Educação (1970). *“Portugal” – edição Der Grosse Polyglott – Munique (1975). *“Portugal 1974” – edição Fodor’s Hodder & Stoughton (1974). *“Portugal” – edição “Lonely Planet” (1997) por Julia Wilkinson e John King. *“Lisboa” – Guia American Express (1998). *“Portugal – Guia del Trotamundos” – edição Gaesa (1998). *“España Portugal” – Guia Michelin (1996, 1999 e 2004). *“À Descoberta de Portugal” – edição Selecções do Reader’s Digest (1982). *“Auto-Atlas – Portugal, Espanha, Marrocos, Europa” – edição Circulo dos Leitores (1984). *“Livro Branco do Turismo 1991” – Edição da SET comemorativa dos 80 anos do Turismo Oficial. *“A Constelação do Turismo na Economia Portuguesa” 2010 – Edição SOL, por Ernâni R. Lopes (Saer).

quarta-feira, 20 de abril de 2011

PAQUETE FUNCHAL – 50 ANOS PROMOVENDO PORTUGAL
Humberto Ferreira
Alguém ouviu falar do programa do centenário do Turismo oficial? Ora o Congresso Internacional de Turismo, réplica do de 1911, realiza-se na Sociedade de Geografia, de 12 a 16 de Maio e há várias eventos, exposições, e espectáculos, com a presença das altas entidades.
Esperamos que seja realçado o papel dos transportes no turismo, nomeadamente os marítimos, e a ajuda dada pelos Touring Clubes (actual ACP), Caminhos de Ferro e armadores europeus na consolidação do Turismo no início do século XX.
Espero que se reconheça o contributo da Gazeta dos Caminhos de Ferro e da Sociedade de Propaganda de Portugal, excelente exemplo da promoção turística liderada pelos privados, assim como o papel dos navios de passageiros, por dinamizarem as excursões locais.
À chegada dos paquetes a Lisboa e Funchal, eram mobilizados táxis e automóveis da época, que partiam para Sintra, Estoril e outros destinos na Madeira, com centenas de turistas. Na exposição Viajar em 1910, do Centenário da República, estava exposta uma grande foto do Cais do Sodré, ponto de partida para essas excursões de automóvel para Sintra e Cascais, com passageiros dos paquetes ingleses e italianos.
O CONTRIBUTO DO PAQUETE FUNCHAL
Outra sugestão é associar os 50 anos deste fabuloso navio construído na Dinamarca e chegado a Lisboa em Outubro de 1961, o último dos 56 navios construídos ao abrigo do despacho nº 100 do ministro da Marinha, almirante Tomás, que abrangeu 26 paquetes entre 1946-61.
Ora quem pode mais comemorar 100 anos de Turismo e ter um paquete com 50 anos, acabado de renovar e pronto para agradar nos mais exigentes mercados internacionais?
O Funchal foi remodelado em 1973 para cruzeiros e em Maio de 1976 foi, pela primeira vez, fretado pelo armador grego George Potamianos, até que, em 1985, o adquiriu. Seguiram-se 25 intensos anos de cruzeiros, que o levaram a todos os continentes, com comando e tripulação maioritariamente portuguesa.
Face às novas exigências da Convenção Solas, este armador decidiu, em finais de 2010, renová-lo e investir mais 12 milhões de euros, adaptando-o às novas regras marítimas. Encontra-se num estaleiro do Tejo, para reiniciar nova temporada em Julho, incluindo o cruzeiro do cinquentenário à Madeira. Motivo para o seu armador ser distinguido pelas autoridades do país, onde fixou a sede da empresa e a base da frota de cinco navios com bandeira portuguesa.
CELEBRAR EFEMÉRIDES
Assim como honrar o passado para dignificar o futuro. Em 2011 completam-se 90 anos do 1º voo Lisboa-Madeira por Sacadura Cabral, Gago Coutinho, e Ortins Betencourt. Serviu de ensaio para a 1ª travessia aérea do Atlântico Sul em 1922. Feito histórico celebrado no Brasil a 17 de Junho. O Clube Militar Naval inaugurou um padrão comemorativo na antiga Base da Aviação Naval no Bom Sucesso, que foi retirado para a construção de um hotel no local. A base de pedra ainda lá está, mas o padrão está afastado, escondido por automóveis. Ambas as efemérides merecem ser projectadas nas acções de promoção externa nesta fase crítica da vida nacional. Não se estranhe que os estrangeiros nos admirem mais pelo passado.
A 30 de Abril, um grupo de 100 Sea Cadets britânicos vai ao Museu da Marinha homenagear os navegadores e aviadores portugueses, enquanto a auto-estima lusa vibra mais com a bola, a arbitragem e apagões no estádio!
VALORIZAR RECURSOS
Todos, mas em princípio os prioritários, desde que sejam estratégicos genuínos e exportáveis, como os provenientes do mar, turismo receptivo, transportes internacionais, desportos, cultura, cortiça, mármore, cristais, porcelana, móveis, vinhos, gastronomia e restauração, moda, calçado, agricultura, águas termais, artesanato, azulejos, eventos, etc. Apostando sempre no design, qualidade e clusters fortes.
Aliás, a formalização dos clusters económicos foram sugeridos em 1994 por Michael Porter mas adoptados apenas pelo Calçado e Vinhos. Nem o Turismo aderiu e os transportes ainda não contribuem para a conta satélite do turismo. O simplex tarda mas da crise poderá nascer a oportunidade!
A reorganização do país e das actividades marítimas estão na ordem do dia. O Mar pode ser o próximo cluster a formalizar, a partir da articulação das diversas iniciativas recentes, entre as quais o Fórum Empresarial da Economia do Mar.
AGENDA ATÉ 2014:
MENOS PROVEITOS, MAIS CUIDADO NOS INVESTIMENTOS

Em Abril não há “quadro de honra”. Os nossos credores querem aparentemente encurtar as férias e eliminar o respectivo subsídio, que, por sinal, corresponde à diferença de se pagar 52 semanas por ano ou 13 meses de quatro semanas.
Uma ajuda voluntária para se abreviar, por exemplo, uma prestação do resgate, vá lá! Mas NUNCA sacrificar mais quem passa mais de 12 horas fora de casa, a trabalhar horas extras sem receber, num país desorganizado e mal servido de transportes.
Os portugueses não são menos que os alemães. A maioria também merece férias e pausas, e melhores remuneração pelo trabalho.
São três as razões que me aconselharam a não incluir ninguém no “quadro de honra” em Abril.
O FEEF e a Comissão Europeia deveriam aplicar em todos os países-membros os feriados bancários europeus e a implementar um modelo de remunerações salariais semelhante em toda a União Europeia.
Moeda única sem sistema fiscal uniforme e sem travar a deslealdade competitiva e produtiva, só conduzirá ao fracasso do Euro.
Em Inglaterra há seis feriados bancários, pois o segredo é exactamente distribuir as pausas intermédias, a que os trabalhadores têm direito, para estimular a economia do Turismo e neutralizar a sazonalidade. Se atacam mais o Turismo, adeus Portugal e quem sabe? Adeus, Europa Unida!
Depois, da euforia de descontos de 60% nas vendas antecipadas de viagens de férias, o mercado doméstico projecta desespero ou especulação? Cuidado! 60% não é um desconto é um saldo ao desbarato!
E, por fim, o desgoverno da factura das parcerias publico-privadas, que subiu a 60 mil milhões de euros até 2020, além dos 80 mil milhões da emergência a receber agora do FEEF-FMI-BCE, são dívidas que sobrecarregam múltiplas gerações. E para cúmulo, a receita do FMI, afinal, é mais suave do que a dos europeus, comprovando que o nosso governo tem andado desnorteado!
O novo governo tem que ter mais cuidado no plano de prioridades para estimular a economia, preparando sim Portugal para negócios globais. Por exemplo, faz falta para concretizar a Nova Rota da Seda, da China para Sines, pelo canal do Panamá, a AE e linha CF Sines-Beja-Caia, assim como a mudança da bitola ibérica para a europeia na nossa rede férrea. O resto fica em lista de espera, pois quem não gere proveitos suficientes, tem que trabalhar mais e melhor e não ostentar tanto.
MARAVILHAS SABOROSAS
A organização do evento das 7 Maravilhas da Gastronomia esperava 700 inscrições das 10 regiões de sabores lusitanos, mas bastou aos 70 especialistas seleccionados, avaliarem 433 pratos para optarem por 70 pré-finalistas.
O Alentejo leva à final 12, Lisboa e Setúbal nove cada, Açores, Madeira, Trás-os-Montes-Alto Douro e Beira Litoral oito cada, Algarve, Entre Douro-Minho seis cada, Beira Interior três e Estremadura e Alentejo duas cada.
A sete de Maio, 21 notáveis da gastronomia (espero eu que sejam membros das academias europeias de gastronomia?) vão apurar 21 pratos finalistas – três em cada categoria e “voilá” a 7 de Setembro, a festa final em Santarém com a revelação das 7 maravilhas da gastronomia portuguesa 2011. Tratando-se de um sector dinámico, o evento deve ser realizado de sete em sete anos.
Acho que a restauração deve promover, depois de conhecidos, todos os 21 finalistas, pois todos certamente merecerão esse destaque. Os cruzeiros constituem outra boa plataforma de promoção da gastronomia dos portos visitados. Há cruzeiros onde são celebradas festas e refeições dedicadas aos países visitados.
Mas lamento a falha na acção pedagógica e nutritiva, ignorando-se a categoria de saladas (independente das entradas) em vez da caça (aliás houve apenas 14 opções cinegéticas). Na primeira fase foram nomeadas 19 receitas de marisco, 33 sopas, 61 entradas, 90 de carne, 91 de peixe e 120 doces, e na segunda fase foram excluídos o arroz-doce, caldeirada e morcela de arroz, e apuradas as tripas, caldo verde e caspacho alentejano.
Na época da Pascoa, resta-me desejar bom apetite.

terça-feira, 5 de abril de 2011

A HISTÓRIA DE UMA CRISE IMPORTADA
TEIMOSIA OU CEGUEIRA?
Humberto Ferreira
Na actual conjuntura há questões que, até agora, não foram colocadas a quem de direito nem tratadas pelos azes da comunicação social.
1ª – Quanto teria o Ministério das Finanças poupado, se o chefe dos ministros em gestão tivesse feito o que foi dito no Outono passado, ou seja, pedir ajuda externa caso os juros subissem acima de 7%?
2ª – Quanto vale o corte médio nas pensões acima de 1500 euros mensais em comparação com a subida do IVA de 23% para 24% e 25%?
3ª – E quanto já custou aos portugueses a reprovação parlamentar do PEC IV?
Sem números não sou capaz de trabalhar. Pode ser um defeito pessoal, mas tomara que todos os ministros e próximos candidatos seguissem este meu método!
Os graves problemas sobre o presente e o futuro de Portugal não devem continuar a ser tratados nem pela agenda jornalística nem com palpites e ataques pessoas em intervenções televisivas, na rua ou à entrada ou saída de eventos, ou de acusações do animal feroz contra o coelho doméstico e vice-versa! Mas, também, só vai na conversa deles quem corre por gosto!
NO CENÁRIO DE SÃO BENTO
Para que fique claro: primeiro, a residência oficial do Primeiro-Ministro não é o Palácio de São Bento, mas sim um palacete de um antigo industrial adquirido por Salazar pela sua proximidade da Assembleia Nacional da época. Segundo, a sua origem não é palaciana mas sim o mosteiro Beneditino de São Bento da Saúde, transformado em 1834 em sede das Cortes.
Ontem, segunda-feira, 4 de Abril a RTP1 abriu as hostilidades eleitorais de 5 de Junho, com uma entrevista ao Primeiro-Ministro neste cenário burguês. Foi um serão de crispação. Nunca ouvi tanta mentira e tanta propaganda pessoal em tão pouco tempo.
Os nossos políticos pensam que o tempo de antena destas entrevistas lhes dão direito a debitar as respectivas cassetes com a gravação das mensagens partidárias, ou pessoais, que lhes interessa transmitir, especialmente em períodos pré-eleitorais. Confundindo uma entrevista com um comício transmitido pela TV.
Os jornalistas da RTP bem tentaram abreviar as respostas ao PM, mas este repetiu até à exaustão os seus recados ao eleitorado e aos adversários. Ouvi falar mais dos “feitos” do seu primeiro governo e do seu passado do que das futuras propostas do PS para evitar o colapso financeiro eminente! Ouvi atacar mais o PSD e o seu líder, inclusivamente classificando-o repetidas vezes que é “mesquinho, leviano, irresponsável., inexperiente, sôfrego pelo poder, e calculista com uma actuação dupla (lá fora diz uma coisa, em Portugal diz outra) e que o chumbo deste PEC foi uma “golpada eleitoral”. Mas ouvi, do princípio ao fim, auto-elogios. Ora quem se sente, assim, tão acima dos seus pares não pode ser bom governante. Para isso é preciso ser determinando mas tolerante, respeitador da opinião dos outros, menos irritadiço e agressivo, e suficientemente modesto para não cair, por exemplo, na situação de vir pedir já nos próximos dias ajuda externa, como os seus homólogos da Grécia, da Irlanda fizeram, e até o seu antigo secretário-geral Mário Soares seguiu essa via sem preconceitos!
Ele bem tentou confundir os entrevistadores, respondendo enviesado às perguntas.
Não confundiu os jornalistas, mas conseguiu confundir a audiência ao desviar as respostas.
Para ele chega perfeitamente o que diz aos portugueses. De resto são tentativas da reacção para deformar a situação. Disse a um jornalista que via bem que a ele só interessava esclarecer as teses da oposição!
Chamará ele a esta posição a alegada abertura ao diálogo, à negociação e ao acordo para um governo alargado com dois ou mais partidos? Estão a ver alguém dialogar, negociar ou assinar um acordo com ele? Para que serve? Ele não muda!
SALÁRIO MÍNIMO – Por exemplo, fez questão em enumerar as desvantagens já sofridas pela Grécia (há um ano) e pela Irlanda (há seis meses) com a ajuda do FMI (o Fundo Europeu de Estabilização Financeira só foi criado em Fevereiro e só deve estar operacional em Junho de 2011), mas limitou-se a repetir, vezes sem conta, a descida do salário mínimo.
Ora o salário mínimo aplica-se no sector privado e não no público. A Irlanda, especialmente, tem um salário mínimo ainda bastante elevado em relação ao nosso, quando, por sinal, este PM não conseguiu fazer aplicar em 2011 a subida para 550 euros/mês, conforme acordo assinado em 2008.
As confederações empresariais ficaram também muito mal nesta “fotografia de grupo”, pois qualquer empresário, a funcionar normalmente, no espaço europeu, que não possa pagar 500 euros por mês a um empregado … mas que pode pagar as recentes subidas de impostos e outras alcavalas, exigidas pelos PEC 1 e 2 e OE2011, o melhor que tem a fazer é mudar de vida ou de país. A exploração da mão-de-obra deve ser crime de lesa-Europa! E o que interessa ao fisco a manutenção de “empresas” sem lucros durante anos, décadas seguidas? Na Irlanda, pelo menos, isentava-se praticamente as empresas de IRS, para atrair investimento estrangeiro. E conseguiram bater o pé ao FMI nesta batalha! Mas o PM ignorou esta parte!
ENCERRAR ORGANISMOS PÚBLICOS – O PM não quer despedir funcionários públicos com vínculo. Está certo. Mas a Nova Europa não pode continuar a ser o abrigo dos “boys & girls” apadrinhados pelos partidos políticos, da esquerda à direita, para dali recrutar os seus mais fiéis militantes e futuros quadros. O tempo dos Estados gordos acabou. A moda agora é incentivar e promover gente elegante. Adeus aos obesos e adeus aos organismos e gabinetes públicos criados para empregar afilhados políticos.
O Tratado de Roma de 1957, que criou a Comunidade Económica Europeia em 1958, trabalhou muito bem nos primeiros 40 anos, transformando, para o desespero da “ esquerda desunida”, a “Europa dos serviços públicos de rotina” na nova “Europa da competitividade e produtividade”. Acabando com a maior parte das empresas públicas bancárias, seguradoras, transportadoras, marítimas e agrícolas. Mas sempre que os socialistas governam, cresce o número de organismos, empresas e parcerias públicas, pagando o justo pelo pecador!
Ora as ajudas do FMI à Grécia e Irlanda também abrangeram, assim, o encerramento de organismos desnecessários e até a dispensa dos respectivos funcionários, além do corte de salários aos que permaneceram ao serviço. . Mas os portugueses são diferentes e, como tal, merecem ser mais protegidos pelo directório europeu.
PESADA HERANÇA – A Comissão Europeia bem tem avisado Lisboa para privatizar a TAP, Sata, ANA, portos, correios, rodoviárias, RTP, RDP, Lusa, imobiliárias do Estado, e “golden-shares” na TP, Galp, etc., mas a esquerda faz ouvidos moucos e organiza logo marchas de protesto.
Se queremos uma Europa competitiva e produtiva, temos que proporcionar a todos os membros uma fiscalidade unificada, e um empresariado dinâmico. Até lá, a América conta com um avanço parecido com o do Porto na Liga 2010-2011.
Ao governo de Lisboa deu jeito empresas públicas altamente deficitárias (como a CP, Carris, Metros de Lisboa, Porto, Almada, etc.) cujos défices não foram contabilizados no OE, até que Bruxelas descobriu este desvio e a partir de agora, ponto final.
O pior é que na relação dos “bens”, a herdar pelo próximo governo, vem à cabeça o défice acumulado de milhares de milhões de euros dessas empresas mais as dívidas deste governo dos subsídios de compensação pela operação de serviços e rotas de interesse público.
Genial, a desculpa do PM, dada ontem aos jornalistas da RTP: a Comissão Europeia decidiu mudar as regras já depois das nossas contas encerradas, mas o défice do OE2010, para todos os efeitos, foi de 6,8% e não de 8,6% como se diz, depois desta rectificação. Define bem o europeu solidário.
Talvez, também, seja capaz de apagar a luz e regar o relvado, enquanto os adversários ainda estavam no recinto, a festejar a vitória!Fairplay, não lhe falta!
ENCERRAMENTO ZERO – Entretanto, nem disse uma palavra sobre o número dos organismos públicos já encerrados (por estarem a duplicar os encargos do Estado)? Diga-se que estes organismos, fundações, parcerias e similares foram contemplados na célebre e ignorada lista das contrapartidas acordadas com o PSD, desde Maio de 2010, para apoiar o PEC II, em que o Governo subiu o IVA e introduziu novas tabelas de IRS a meio do ano fiscal 2010, portanto, em retroactividade! Ao governo de Lisboa
tudo é permitido, pela Constituição, pela Assmbleia, e pela Comissão Europeia!
Mas diga-se que Lisboa teve mais criatividade na solução adoptada: os funcionários com vínculo ao Estado não seriam dispensados mas colocados na bolsa de mobilidade, para serem chamados para vagas, entretanto, abertas em outros serviços oficiais. Mas nem assim resultou!
REACÇÃO TARDIA DE LISBOA – Os jornalistas apresentaram a tese corrente de que o governo reagiu tarde e com frequentes medidas avulsas para atacar a crise da dívida externa e do excessivo financiamento do Estado, a níveis bem acima dos recursos produzidos (PIB).
Mas o entrevistado desviou a “bola”. Disse que todos os países têm apresentado vários PEC em Bruxelas, enquanto ele só apresentou três, o de 2010 em Março, o segundo em Junho (depois do 1º acordo com o PSD) e agora o 3º, precipitadamente, chumbado pela oposição …mesquinha, leviana, irresponsável e sedenta de mais poder.
E que ele foi o único dirigente que tem avisado os portugueses da gravidade da situação do país. Sem ele, entramos no caos. A opção que nos resta, pobres cidadãos, é: com ele, saímos do caos … mas talvez caiamos no abismo da bancarrota. Isso, ele não disse! Mas nós sabemos.
Curiosamente, quem primeiro advertiu os portugueses da ameaça que o grave endividamento externo teria na vida das gerações seguintes foi Manuel Ferreira Leite, antes e durante a campanha eleitoral (que perdeu) de Setembro de 2009. O que ele sempre negou!
Ainda ontem, ele disse que a Bélgica, Itália, Espanha, França e Reino Unido têm dívidas maiores que a portuguesa. Afinal, nem sabe que uma coisa é a dívida destas potências europeias (com excepção da Bélgica) e o respectivo potencial para pagar os seus compromissos (países altamente industrializados, avançados e organizados… até a Itália tem uma alta taxa de poupança interna e exporta tudo para todo o mundo, onde as marcas italianas são apreciadas) e outra é a dívida pública portuguesa que já cobre 94% do PIB anual.
A Bélgica está há cerca de seis meses sob um governo de gestão e não tem sido tão causticada pelos mercados como Portugal. Porque será? Ninguém acredita no nosso governo? E quando os jornalistas lhe lembraram que a Espanha apresentou um PEC duro em Abril de 2010, ele retorquiu NÃO. Isso não é assim. Adiantando que eles deviam ter estudado melhor o caso.
BANCA E ECONOMIA ASFIXIADA COM PEC – A melhor tirada da noite pelo PM foi: O chumbo do PEC foi mau para Portugal e para o Euro. Nós no conselho do EuroGrupo combinamos uma estratégia para defender o Euro.
Agora, sem a ponta que Portugal constituía neste plano, esse trabalho terá que seguir outra via. Mas não falou num plano B.
MERCADOS NÃO OUVEM O QUE ELE DIZ - Entretanto, o rating de seis bancos portugueses baixou hoje (terça-feira, 5 de Abril) em três níveis, ficando mais próximo do nível do “lixo”.
Também consta que os banqueiros portugueses se reuniram para analisar a situação, tendo o BPI e o BCP recomendado já que o governo deve pedir ajuda externa ao FEEF, para não penalizar mais o crédito à economia.
Aos investidores internacionais deixou de interessar adquirir mais títulos da nossa dívida com ratings tão baixos das agências de rating, castigando os bancos que precisam de se financiar para alimentar a economia.
O PM sujeita-se, assim, a ser lembrado como responsável pela asfixia mais prolongada da economia e da banca.